Ciência com consciência (parte I)

Francisco Carlos Carvalho de Melo

A ciência é a solução para quase todos os problemas da humanidade. Precisamos de ciência para proteger e melhorar a vida das pessoas. A pandemia de Covid-19, com todas as controvérsias sobre como é possível proteger e preservar as vidas de pessoas de todo o mundo, provocou a intensa utilização da palavra Ciência. É possível que em nenhum outro momento da história, essa palavra tenha sido tão pronunciado quanto neste ano de 2020.

Com efeito, cientistas, iniciados em ciências e pessoas com pouca ou nenhuma formação passaram a utilizar o termo no seu cotidiano. A popularização da ciência, ou pelo menos do uso do termo, é excelente, mesmo que isso traga como apêndice incompreensões e até a negação. Neste artigo, utilizamos o título de Edgar Morin, para oferecer aos nossos elementos para a desmistificação do termo e provocar os cientifistas, na sua concepção filosófica de matriz positivista ou na sua aplicação livresca, bem como os obscurantistas, tidos como negacionistas.

Há cerca de 20 anos fui aluno de Alf Schwarz, um sociólogo, antropólogo e etnologista alemão, naturalizado canadense, que foi professor visitante na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Com Alf Schwarz, aprendi que, embora o rigor metodológico seja a regra geral que garante a sistematização, o controle e a reprodução segura dos processos e resultados da pesquisa científica, há outras formas de descobertas científicas.

Por exemplo, há muitos registros de descobertas acidentais em ciências ou descobertas daquilo que não se estava procurando, fenômeno também conhecido como serendipity. Obviamente, mesmo para que uma descoberta aconteça de forma acidental, é necessário preparo técnico e capacidade de observação para percebê-la. Essas descobertas são reproduzidas, testadas e submetidas aos pares para a crítica.

Conhecimentos técnicos ou científicos também surgem do experimentalismo. O contato com a natureza das coisas, o teste por meio de sucessivas tentativas de erros e acertos, já produziu muito conhecimento dito científico (as vezes, não sem algum custo, inclusive humano). Pode ser que o experimentalismo contraponha o método ou até o fundamente, orientando a produção de descobertas de forma mais segura. Então, descobertas podem surgir de maneira acidental, experimental ou metódica.

Na academia, só podemos ensinar com uso do método, pois não temos como orientar a descoberta acidental (por óbvio) e o experimentalismo, que, uma vez descrito para ser reproduzido, passa a se chamar método. Embora citando apenas essas três, é possível outras formas produção do conhecimento.

Seja qual for a forma, é necessário compreendermos que a ciência não percorre um caminho linear, inexoravelmente direcionado para o conhecimento certo, verdadeiro e inquestionável. A ciência caminha como um sonâmbulo, tateando, muitas vezes sem direção certa, avançando a passos lentos, com pequenos acréscimos e reveses.

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Francisco Carlos Carvalho de Melo é Professor da UERN, Doutor em Administração, vereador em Mossoró/RN pelo partido Progressistas e autor de Breve – Passagens sobre o tempo, o vento, as pessoas e a cidade.

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