Sou crioulo fugido

Professor Francisco Carlos

Vidas não tem preço. Mas, sabemos que não foi sempre assim. Levantamos algumas referências para apresentar uma incipiente noção sobre o valor que podia ser atribuído a um negro escravizado, exemplificando com anúncios sobre recompensas pela captura e devolução de negros na imprensa do Brasil imperial. Ao levantar este tema, amplio minha indignação, por me sentir no lugar daqueles que foram presos, separados de suas famílias, humilhados, comercializados, torturados e mortos.

No Brasil Imperial, até o ano de 1888, impressos anunciavam recompensas pela captura e devolução de negros que fugiam dos grilhões da escravidão. Em dois desses anúncios me colocaram à prêmio, porque eu me submetia ao jugo. Eu fugia.

Em 1854, Eduardo Laemmert anunciou em um cartaz a recompensa por minha captura e recuperação: pagava 50 mil réis a quem lhe entregasse “seu” crioulo fugido. Me chamavam Fortunato, mas eu me apresentava com nome e sobrenome, Fortunato Lopes da Silva. Era jovem, baixo, reforçado, faltando dentes da frente. Pachola e mal encarado, às vezes andava calçado. Sabia fazer vários serviços, talvez por isso, a boa recompensa anunciada.

Em 1868, eu atendia pelo nome João de Nação, já estava velho e com um defeito no olho. Apesar disso, estava sempre fugindo. Habilidoso, sabia fazer todos os serviços.

Joaquim Cassiano Monteiro, de Ouro Preto, que dizia ser meu proprietário, anunciou no jornal O Liberal de Minas, que gratificava bem por notícias ou minha prisão.

Em 2020, tenho vários nomes, não apareço em anúncio da seção de escravos fugidos, mas estou à prêmio. Sou crioulo fugido do analfabetismo, do desemprego e da miséria, que avisto por perto. Livre dos ferros, fujo do preconceito velado, expresso na desconfiança e na caridade de outros.

Tem sempre alguém querendo pagar pela minha captura. Por isso, fujo do patrão e do colega de trabalho. Fujo da polícia e dos bandidos. Fujo dos ateus e dos crentes. Fujo dos políticos de esquerda, de direita e de centro. Fujo de heterossexuais e de gays. Fujo de intelectuais e de ignorantes. Fujo de todos. Fujo de mim mesmo, tentando me encontrar, longe da hipocrisia e do mal disfarçado.

Fujo para depois não me esconder. Me apresento aos caçadores de recompensas, sabendo que a gratificação prometida jamais corresponderia a meu valor. Sei que estou à prêmio, mas não sei quanto eles pagam por minha captura. Quanto estão dispostos a pagar pela minha posse?

Em 1846, um “escravo comum” valia cerca de 360 mil réis, ou o equivalente a 30 sacas de café, que custava 12 mil réis cada. Hoje, pela cotação do café (R$ 445,00), um escravo valeria cerca de R$ 13 mil.

Já em 1875, próximo da Abolição, com o tráfico negreiro proibido e a lei do ventre livre, um escravo valia, em média, 1 milhão e 300 mil réis. Com a saca de café pelo valor de 32 mil réis,um escravo equivalia a 40 sacas ou cerca de R$ 18 mil em valores atuais, pela comparação da commoditie.

Pelas mesmas condições humanas e de mercado, devo valer 40 sacas de café ou R$ 18 mil a preços atuais. Não parece muito. No mercado, podem conseguir um valor maior, pois sei ler e escrever. Não tenho a menor ideia sobre quanto pagariam por crioulo com doutorado. Sou crioulo emancipado.

Não é guerra de raças ou de quem tem mais virtudes. Fico confuso porque havia negros que eram donos de escravizados. Até Zumbi dos Palmares, dizem. Então, tanto posso ser o anunciante tentando recuperar-se de prejuízos, como o caçador de recompensas em busca boa gratificação. Preciso refletir, embora preferir me ver como o crioulo João de Nação, sempre fugido.

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Francisco Carlos Carvalho de Melo é Professor da UERN, Doutor em Administração, vereador em Mossoró/RN pelo Progressistas e autor de Breve – Passagens sobre o tempo, o vento, as pessoas e a cidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MARCONDES, Renato Leite; Motta José Flavio. Duas fontes documentais para o estudo dos preços dos escravos no Vale do Paraíba Paulista. revista Brasileira de História. São Paulo, v.21 nº 4, p.4.
CASTRO, Oliveira Portocarrero. Viabilidade econômica da escravidão no Brasil: 1880 – 1888.
Fatos Curiosos, disponível em
Noticias agrícolas http://www.noticiasagricolas.com.br/cotacoes/cafe/cafe-arabica-mercado-fisico-tipo-6-duro

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